
Caro Editor,
Sou assinante da Revista Veja e gostaria de fazer alguns comentários a respeito da matéria ‘O encanto da urna se quebrou?’, da edição 1992, de 24 de janeiro de 2007.
Inicialmente, vou comentar algumas passagens da publicação. O jornalista começa a matéria fazendo a seguinte afirmação: “O sistema brasileiro de voto eletrônico é o melhor, mais eficiente e mais abrangente do mundo”. Essa é uma afirmação sem o menor embasamento, no melhor estilo, se todo mundo diz que é o melhor, eu também acho que seja o melhor. Por isso, para um melhor esclarecimento, gostaria de saber do jornalista, quais foram os critérios usados para afirmar que o nosso sistema brasileiro de voto eletrônico é considerado o melhor e mais eficiente do mundo? O autor da matéria comparou o nosso sistema com quais paÃÂses? Além disso, o que significa um sistema de voto eletrônico abrangente?
Em seguida, o autor faz a afirmação: “As eleições brasileiras são feitas com a certeza de que as urnas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são invioláveis.”. Afirmar isto é desconher o mÃÂnimo de segurança da informação. Em curso ou livro introdutório dessa área, sempre fica explÃÂcita a informação de que não existe sistema 100% seguro. Portanto, para alguém acreditar nisso e publicar num dos veÃÂculos de comunicação de maior alcance no PaÃÂs, só pode estar desinformado ou então possuir outras intenções.
Logo após, o autor escreve: “Não passa pela cabeça de ninguém questionar a lisura do sistema.”. Isto é uma prova de total desinteresse do autor em pesquisar sobre o que já foi escrito sobre sistema eletrônico brasileiro. Só para se ter uma noção, em setembro de 2003, um grupo respeitável de professores, de universidades como USP, UNICAMP, UNB e ITA, escreveu um manifesto alertando contra a insegurança do sistema eleitoral informatizado. Este manifesto ainda está disponÃÂvel no site http://www.votoseguro.com/alertaprofessores/. Como é possÃÂvel perceber, o problema de insegurança da urna eletrônica no PaÃÂs é antigo e várias pessoas já se manifestaram a respeito. Inclusive, existe uma página em que é possÃÂvel encontrar vários textos a respeito em http://www.brunazo.eng.br/voto-e/indice.htm.
Por que será que os paÃÂses desenvolvidos, com tecnologia avançada e recursos financeiros para investimentos ainda não desenvolveram algo similar? Por que será que professores das nossas melhores universidades se manifestaram contra a atual urna eletrônica? Por que a imprensa nunca deu ouvido a eles? O que faz a revista, somente agora, se dar conta deste problema? Como é possÃÂvel ter certeza que a urna é confiável, se o seu código-fonte nunca foi auditado? São questões que precisam ser discutidas e colocadas ao grande público, quebrando com a mÃÂstica da involabilidade da urna eletrônica no Brasil.
Escrever afirmações tão contudentes, sem um maior embasamento, só gera confusão na cabeça dos leitores que, muitas vezes, aceitam, passivamente, como verdade o que é escrito na revista. Sendo assim, conforme tentei demonstrar, em poucas palavras, é necessário que a revista tenha mais cautela ao publicar esse tipo de matéria.
Atenciosamente,
Tiago Eugenio de Melo
Analista de Sistemas
Manaus - Amazonas
tiago@comunidadesol.org